– Boa tarde, menina Maria. – A Renee, a empregada mais antiga da casa, cumprimenta-me quando entro em casa.
– Hum. – Tento tirar as chaves da porta. – Olá, Renee. Tem que chamar alguém para resolver o problema da porta! – Finalmente consigo tirar a chave da porta.
– Tem razão menina, mas sabe que é o senhor ou William que tratam disso. – O William é o nosso motorista.
– Eu sei. A minha mãe?
-A senhora está no quarto a descansar e o senhor já chegou.
– Já? Onde está? – Fico surpreendida por o Xavier ter chegado tão cedo a casa.
– Está fechado no escritório. – Renee faz uma cara irónica.
– Típico. Vou ver a minha mãe, Renee.
Começo a subir as escadas enquanto a Renee volta para a cozinha.
– Maria. – A voz do Xavier faz-me parar quase no meio das escadas e volto para trás.
– Sim, diga. – O seu rosto é duro como já é normal.
– Devia ter chegado a casa muito mais cedo. Afinal não tem aulas à tarde.
– Está a controlar-me? – Tento manter a calma.
– Sim estou, onde esteve? – O seu rosto tornou-se mais dura e a sua voz mais audível.
– Não tem nada a ver com isso! – Viro-lhe as costas, nas minhas palavras e no meu rosto demonstra ódio e raiva. Sinto ódio por Xavier ainda me tratar como uma criancinha e raiva por não conseguir lutar muito contra isso.
– Não me vire as costas, Maria! Eu sou teu pai! – A sua voz é calma mas ainda dura e audível.
– És meu pai, não és o meu dono. – Olho para trás rapidamente sem parar de subir as escadas, o seu olhar é confuso como sempre, nunca percebo o que está a sentir com o seu olhar.
Bato com os pés bruscamente nos degraus enquanto subo as escadas, não quero esconder a minha raiva nem o meu ódio. Começo a calmar quando estou próximo do quarto da Amália e do Xavier. Bato a porta depois abro-a e espreito lá para dentro.
– Mãe? Posso entrar? – Falo na minha língua materna, o português.
– Sim querida, entra – diz com uma voz baixa com uma perfeita pronúncia portuguesa; está deitada na cama e parece que tinha acabado de acordar. Entro no quarto e sento-me na cama ao lado da Amália.
– Estiveste a discutir com o teu pai? – O seu rosto é ensonado, deve ter despertado com a nossa discussão.
– Sim tivemos. – Pego na mão dela.
– Maria, não contraries o teu pai! – Ela observa-me enquanto eu brinco com os seus dedos.
– Oh mãe, já sabe como ele é para mim, não me peça para não o contrariar. Ele é duro, controlador e rígido para comigo. Ele espera mais de mim, espera mais do que eu consigo ser. – Agora olho-lhe nos olhos. – Ele trata-me como uma criança.
– Eu sei, princesa. – Ela acaricia os meus longos cabelos pretos. – Estou a pedir que tenhas mais paciência com ele.
– Porquê irei de ter paciência por alguém que não me compreende? – O meu rosto endurece.
-Ele compreende-te, ele só te quer proteger e que tenhas uma boa vida. – Amália sorri com ternura ao olhar para mim.
– Já tenho 17 anos, já sei o que faço!
– Eu sei, mas tu serás sempre um bebé para nós.
Levanto-me da cama. É sempre a mesma coisa: tratam-me como uma criança. Quando é que o Xavier e a Amália entendem que já sou uma jovem adulta? Que já sei o que quero? E que quero a minha dependência emocional deles?
– Vou para o meu quarto. – Dirijo-me para a porta e saio.
No meu quarto retiro a farda do colégio e visto outra roupa. Vou para a minha secretária fazer os trabalhos do colégio e por fim penso no que me aconteceu hoje e em toda a minha vida até hoje.
Deixo as escadas a correr e vou para a sala de jantar.
– Olá, William – digo ao passar pelo motorista.
– Boa noite, menina. – Sorri.
– Desculpem o atraso – digo ao entrar na sala de jantar.
– Maria, é sempre o mesmo chegas constantemente atrasada ao jantar. O jantar é às 20 horas, não é às 20 e 5 nem 20 e 20, é às 20 horas percebes?
– Desculpe, esteve a fazer os trabalhos do colégio. – Minto, tenho os trabalhos feitos à pelo menos a uma hora.
– Estás sempre a fazer os trabalhos enquanto devias estar a jantar! – Um exagero de Xavier. – Ainda não me disseste a onde foste!
– Por favor Xavier, estamos a jantar. – A Amália posa a sua mão no branco do Xavier.
– Só quero saber onde andou a minha filha, Amália, e acho que tu também deves querer saber!
– Já tenho idade suficiente para saber o que faço! – A minha voz agora é dura tal como a de Xavier e isso assusta-me, talvez não saiba os meus limites.
– Minha menina, tu estás na minha casa, por isso, tu tens que viver sob as minhas regras. – A sua voz torna-se mais dura e mais audível que a minha.
– Está bem, sendo assim, saio de casa! – Levanto-me e saio da sala de jantar, corro mas ainda oiço a Amália a chamar-me.
Tranco-me no meu quarto e retiro a minha grande mala de viagem do roupeiro, meto-a em cima da minha grande cama, coloco lá dentro as minhas roupas preferidas, um fato de treino e a farda do colégio, 1 pare de ténis, um pare de sapatos, umas sabinas e uns chinelos. A Amália e o Xavier devem estar a discutir por nenhum deles estar a bater a porta do quarto.
De repente oiço alguém a bater a porta, deve ser a Amália para bater a porta devagar e sem gritar.
Abro a porta, e deixo ela entrar, ela fica surpreendida ao ver a minha mala de viagens em cima da minha cama aberta com roupa e sapatos lá dentro. Talvez não estivesse à espera que tivesse falar a sério, deve ter pensado que era só uma simples birra como sempre pensam.
– Esta noite fico mas amanhã de manha vou-me embora. – Passa mil e uma coisas pela minha cabeça.
– Para onde vais, filha? – O medo percorre o rosto e os olhos da Amália.
– Não sei, mãe. Mas quero sair daqui! – A minha voz agora é nervosa e ansiosa, também eu estou com medo.
– Ninguém te vai tirar essa ideia da cabeça, pois não?
– Não mãe.
– És tão teimosa como o teu pai! – Ela abraça-me. – Não te posso obrigar a nada, Maria, afinal de contas já estás grande para tomar decisões! Mas promete-me que me vais telefonar todos os dias, que me vens visitar-me de vez enquanto e que me dizes onde estás sempre. – Sinto uma lágrima a cair para o meu pescoço que vem do rosto da minha mãe.
– Sim, mãe. – Afasto-me dela e limpo-lhe as lágrimas do rosto. – Vai ficar tudo bem!
– Não queres ir lá abaixo comer? – Pára de chorar.
– Não.
– Então vou lá em baixo falar com o teu pai e peço a Renee para te trazer o jantar. – Acaricia-me o rosto.
– Obrigada, mãe. – Sorrio e ela sai.
Deito-me ao lado da mala e penso. É a única coisa que consigo fazer agora: pensar em tudo o que aconteceu hoje, o que posso fazer mais do que pensar?
De repente alguém bate a porta.
– Entra, Renee. – Ela tem uma maneira estranha de bater a porta mas é engraçado.
- Está aqui o seu jantar, menina. – Ela coloca o tabuleiro em cima da minha secretaria.
– Obrigada, Renee.
– Menina… – Ela observa-me curiosamente mas assustada.
– Sim, Renee? – Olho para ela desconfiada, imagino a pergunta que vem.
– A menina Maria vai sair de casa? – Ela fala meio a medo.
– Sim Renee, vou sair de casa. – Sorrio.
– Para onde vai? A menina é tão pequena.
– Renee, eu já não sou nenhuma criança e não sei para onde vou. – Levando-me da cama. – Agora deixa-me sozinha, por favor.
– Sim menina.
Sento-me a secretária e começo a comer. Quando acabo penso no que tenha descoberto esta tarde. Não podia sair de casa porque tenho que tirar os ficheiros do computador do Xavier e descobrir o como e porquê de ele os ter. Mas estou tão farta dele e do mau ambiente em casa que não suporto ficar cá nem mais um dia.
Oiço a porta a bater com alguma violência, deve ser Xavier e ele entra logo a seguir sem permissão.
– Maria, precisamos de falar! – O seu rosto é diferente do normal, indefinido, parece preocupado e nervoso.
– Acho que já dissemos tudo! – Levanto-me serenamente.
– Eu não disse tudo! – Ele fecha a porta e aproxima-se.
Para ele não entrar pelo meu quarto a gritar e a fechar a porta a bruta é porque necessita de contar algo realmente importante. Ele fala comigo em português, o que nunca acontecia, já nem fala bem português, diz algumas palavras erradas e tem um grande sotaque americano.
– O que se passa afinal? – Cruzo os braços debaixo do peito.
– Talvez seja melhor sentarmos. – A sua simpatia começa-me a preocupar-me.
– Estou bem de pé mas pode sentar-se. – Aponto para a cama e volto a cruzar os braços, mantenho-me fria e distante.
Ele senta-se, observa-me nervoso, morde o lábio inferior e finalmente fala.
– Acho que tenho leucemia. – Fala baixo olhando para o chão.
– O quê? Tens leucemia? – Questiono, não devo ter ouvido bem.
– Sim. – Ele agora olha-me nos olhos e fala mais alto. – Acho que tenho leucemia.
O meu mundo cai e estou assustada. A minha vida deu mais uma volta de 180º graus sem eu estar a espera, sem eu pedir ou prever, num dia que custa em terminar.
– A mãe? A mãe já sabe? – Não tinha a certeza que o Xavier tivesse contado a Amália, ela pareceu-me normal nos últimos tempos.
– Não, ainda não fui capaz de lhe contar mas só lhe quero contar quando tiver a certeza … por isso Maria, eu peço-te que fiques pelo menos até eu saber os resultados e se tiver que contar a tua mãe.
O Xavier não quer contar a Amália que pode ter leucemia parece, uma cobardia por parte dele, que sempre se mostra tão forte! Não desejo ficar cá em casa mas só pela Amália eu fico.
– Obrigada, filha. – A levanta-se e abraça-me.
Foi tão estranho este momento, tenho tão poucas recordações em que ele me chama filha e me abraça. Já nem sei o que isso é.
Deito-me da cama, por debaixo dos cobertores. O sono não vem, parece que vou passar a noite em branco. Olho para o relógio digital encima da minha mesa-de-cabeceira e ainda é uma e meia da manhã. O que posso fazer? Esperar que o sono venha?
Tudo o que tinha acontecido está-me a dar cabo dos nervos. Num único dia entro numa outra vida, agora uma vida dupla, e descubro que o Xavier pode ter leucemia.
Não me sai duas perguntas da cabeça: Como será a minha vida dupla? E o que acontecera a minha família se o Xavier tiver leucemia?
Acordo e olho para o relógio, estou mais uma vez atrasada e visto-me a pressa.
– William, leva-me a casa do Louis por favor – digo ao ver o motorista a entrar cozinha enquanto acabo de comer.
– Sim, menina! – Sorri.
– Louis desculpa o atraso! – Dou-lhe um suave beijo e entro em casa.
- Estás 15 minutos atrasada! Nós não aceitamos atrasos! – Diz friamente Benjamin.
Benjamin está no fundo da sala, a observar-me duramente. Como eu detesto aquela expressão que ele faz, faz-me lembrar o Xavier. A Erica aparece ao seu lado sorridente.
– Olá querida. Não te preocupes, a Caroline também está sempre atrasada.
– Ben, não stress, já cheguei! – Caroline vem sorridente como sempre a descer as escadas.
– Vocês têm que aprender a não se atrasar.
– Ben, deixa as miúdas! – Diz a Erica calma mas um pouco irritada perto do ouvido dele.
– Tinha coisas para preparar. – A Caroline justifica-se. – Maria vem comigo para o meu quarto para fazer algumas coisas no teu computador.

Hallo!
eu quando vi um doc a entrar no meu msn com o titulo a minha vida dupla… eu só pensei “NAO PODE!”. Depois de tanto tempo tu brindaste-nos com um cap. Finalmente.
Só espero que o proximo nao demore tanto tempo. Tens de continuar a coisa para ver onde isto vai dar.
Gostei muito.
Bjis.