A Minha Vida Dupla – Promessas

2º Capitulo – Os Atrasos. 16/06/2010

Filed under: Sem categoria — CatarinaGL @ 15:05

         

          – Boa tarde, menina Maria. – A Renee, a empregada mais antiga da casa, cumprimenta-me quando entro em casa.

          – Hum. – Tento tirar as chaves da porta. – Olá, Renee.  Tem que chamar alguém para resolver o problema da porta! – Finalmente consigo tirar a chave da porta.

          – Tem razão menina, mas sabe que é o senhor ou William que tratam disso. – O William é o nosso motorista.

          – Eu sei. A minha mãe?

          -A senhora está no quarto a descansar e o senhor já chegou.

          – Já? Onde está? – Fico surpreendida por o Xavier ter chegado tão cedo a casa.

          – Está fechado no escritório. – Renee faz uma cara irónica.

          – Típico. Vou ver a minha mãe, Renee.

          Começo a subir as escadas enquanto a Renee volta para a cozinha.

          – Maria. – A voz do Xavier faz-me parar quase no meio das escadas e volto para trás.

          – Sim, diga. – O seu rosto é duro como já é normal.

          – Devia ter chegado a casa muito mais cedo. Afinal não tem aulas à tarde.

          – Está a controlar-me? – Tento manter a calma.

          – Sim estou, onde esteve? – O seu rosto tornou-se mais dura e a sua voz mais audível.

          – Não tem nada a ver com isso! – Viro-lhe as costas, nas minhas palavras e no meu rosto demonstra ódio e raiva. Sinto ódio por Xavier ainda me tratar como uma criancinha e raiva por não conseguir lutar muito contra isso.

          – Não me vire as costas, Maria! Eu sou teu pai! – A sua voz é calma mas ainda dura e audível.

          – És meu pai, não és o meu dono. – Olho para trás rapidamente sem parar de subir as escadas, o seu olhar é confuso como sempre, nunca percebo o que está a sentir com o seu olhar.

          Bato com os pés bruscamente nos degraus enquanto subo as escadas, não quero esconder a minha raiva nem o meu ódio. Começo a calmar quando estou próximo do quarto da Amália e do Xavier. Bato a porta depois abro-a e espreito lá para dentro.

          – Mãe? Posso entrar? – Falo na minha língua materna, o português.

          – Sim querida, entra – diz com uma voz baixa com uma perfeita pronúncia portuguesa; está deitada na cama e parece que tinha acabado de acordar. Entro no quarto e sento-me na cama ao lado da Amália.

          – Estiveste a discutir com o teu pai? – O seu rosto é ensonado, deve ter despertado com a nossa discussão.

          – Sim tivemos. – Pego na mão dela.

          – Maria, não contraries o teu pai! – Ela observa-me enquanto eu brinco com os seus dedos.

          – Oh mãe, já sabe como ele é para mim, não me peça para não o contrariar. Ele é duro, controlador e rígido para comigo. Ele espera mais de mim, espera mais do que eu consigo ser. – Agora olho-lhe nos olhos. – Ele trata-me como uma criança.

          – Eu sei, princesa. – Ela acaricia os meus longos cabelos pretos. – Estou a pedir que tenhas mais paciência com ele.

          – Porquê irei de ter paciência por alguém que não me compreende? – O meu rosto endurece.

          -Ele compreende-te, ele só te quer proteger e que tenhas uma boa vida. – Amália sorri com ternura ao olhar para mim.

          – Já tenho 17 anos, já sei o que faço!

          – Eu sei, mas tu serás sempre um bebé para nós.

          Levanto-me da cama. É sempre a mesma coisa: tratam-me como uma criança. Quando é que o Xavier e a Amália entendem que já sou uma jovem adulta? Que já sei o que quero? E que quero a minha dependência emocional deles?

          – Vou para o meu quarto. – Dirijo-me para a porta e saio.

          No meu quarto retiro a farda do colégio e visto outra roupa. Vou para a minha secretária fazer os trabalhos do colégio e por fim penso no que me aconteceu hoje e em toda a minha vida até hoje.

          Deixo as escadas a correr e vou para a sala de jantar.

          – Olá, William – digo ao passar pelo motorista.

          – Boa noite, menina. – Sorri.

          – Desculpem o atraso – digo ao entrar na sala de jantar.

          – Maria, é sempre o mesmo chegas constantemente atrasada ao jantar. O jantar é às 20 horas, não é às 20 e 5 nem 20 e 20, é às 20 horas percebes?

          – Desculpe, esteve a fazer os trabalhos do colégio. – Minto, tenho os trabalhos feitos à pelo menos a uma hora.

          – Estás sempre a fazer os trabalhos enquanto devias estar a jantar! – Um exagero de Xavier. – Ainda não me disseste a onde foste!

          – Por favor Xavier, estamos a jantar. – A Amália posa a sua mão no branco do Xavier.

          – Só quero saber onde andou a minha filha, Amália, e acho que tu também deves querer saber!

          – Já tenho idade suficiente para saber o que faço! – A minha voz agora é dura tal como a de Xavier e isso assusta-me, talvez não saiba os meus limites.

          – Minha menina, tu estás na minha casa, por isso, tu tens que viver sob as minhas regras. – A sua voz torna-se mais dura e mais audível que a minha.

          – Está bem, sendo assim, saio de casa! – Levanto-me e saio da sala de jantar, corro mas ainda oiço a Amália a chamar-me.

          Tranco-me no meu quarto e retiro a minha grande mala de viagem do roupeiro, meto-a em cima da minha grande cama, coloco lá dentro as minhas roupas preferidas, um fato de treino e a farda do colégio, 1 pare de ténis, um pare de sapatos, umas sabinas e uns chinelos. A Amália e o Xavier devem estar a discutir por nenhum deles estar a bater a porta do quarto.

          De repente oiço alguém a bater a porta, deve ser a Amália para bater a porta devagar e sem gritar.

          Abro a porta, e deixo ela entrar, ela fica surpreendida ao ver a minha mala de viagens em cima da minha cama aberta com roupa e sapatos lá dentro. Talvez não estivesse à espera que tivesse falar a sério, deve ter pensado que era só uma simples birra como sempre pensam.

          – Esta noite fico mas amanhã de manha vou-me embora. – Passa mil e uma coisas pela minha cabeça.

          – Para onde vais, filha? – O medo percorre o rosto e os olhos da Amália.

          – Não sei, mãe. Mas quero sair daqui! – A minha voz agora é nervosa e ansiosa, também eu estou com medo.

          – Ninguém te vai tirar essa ideia da cabeça, pois não?

          – Não mãe.

          – És tão teimosa como o teu pai! – Ela abraça-me. – Não te posso obrigar a nada, Maria, afinal de contas já estás grande para tomar decisões! Mas promete-me que me vais telefonar todos os dias, que me vens visitar-me de vez enquanto e que me dizes onde estás sempre. – Sinto uma lágrima a cair para o meu pescoço que vem do rosto da minha mãe.

          – Sim, mãe. – Afasto-me dela e limpo-lhe as lágrimas do rosto. – Vai ficar tudo bem!

          – Não queres ir lá abaixo comer? – Pára de chorar.

          – Não.

          – Então vou lá em baixo falar com o teu pai e peço a Renee para te trazer o jantar. – Acaricia-me o rosto.

          – Obrigada, mãe. – Sorrio e ela sai.

          Deito-me ao lado da mala e penso. É a única coisa que consigo fazer agora: pensar em tudo o que aconteceu hoje, o que posso fazer mais do que pensar?

          De repente alguém bate a porta.

          – Entra, Renee. – Ela tem uma maneira estranha de bater a porta mas é engraçado.

          - Está aqui o seu jantar, menina. – Ela coloca o tabuleiro em cima da minha secretaria.

          – Obrigada, Renee.

          – Menina… – Ela observa-me curiosamente mas assustada.

          – Sim, Renee? – Olho para ela desconfiada, imagino a pergunta que vem.

          – A menina Maria vai sair de casa? – Ela fala meio a medo.

          – Sim Renee, vou sair de casa. – Sorrio.

          – Para onde vai? A menina é tão pequena.

          – Renee, eu já não sou nenhuma criança e não sei para onde vou. – Levando-me da cama. – Agora deixa-me sozinha, por favor.

          – Sim menina.

          Sento-me a secretária e começo a comer. Quando acabo penso no que tenha descoberto esta tarde. Não podia sair de casa porque tenho que tirar os ficheiros do computador do Xavier e descobrir o como e porquê de ele os ter. Mas estou tão farta dele e do mau ambiente em casa que não suporto ficar cá nem mais um dia.

          Oiço a porta a bater com alguma violência, deve ser Xavier e ele entra logo a seguir sem permissão.

          – Maria, precisamos de falar! – O seu rosto é diferente do normal, indefinido, parece preocupado e nervoso.

          – Acho que já dissemos tudo! – Levanto-me serenamente.

          – Eu não disse tudo! – Ele fecha a porta e aproxima-se.

          Para ele não entrar pelo meu quarto a gritar e a fechar a porta a bruta é porque necessita de contar algo realmente importante. Ele fala comigo em português, o que nunca acontecia, já nem fala bem português, diz algumas palavras erradas e tem um grande sotaque americano.

          – O que se passa afinal? – Cruzo os braços debaixo do peito.

          – Talvez seja melhor sentarmos. – A sua simpatia começa-me a preocupar-me.

          – Estou bem de pé mas pode sentar-se. – Aponto para a cama e volto a cruzar os braços, mantenho-me fria e distante.

          Ele senta-se, observa-me nervoso, morde o lábio inferior e finalmente fala.

          – Acho que tenho leucemia. – Fala baixo olhando para o chão.

          – O quê? Tens leucemia? – Questiono, não devo ter ouvido bem.

          – Sim. – Ele agora olha-me nos olhos e fala mais alto. – Acho que tenho leucemia.

          O meu mundo cai e estou assustada. A minha vida deu mais uma volta de 180º graus sem eu estar a espera, sem eu pedir ou prever, num dia que custa em terminar.

          – A mãe? A mãe já sabe? – Não tinha a certeza que o Xavier tivesse contado a Amália, ela pareceu-me normal nos últimos tempos.

          – Não, ainda não fui capaz de lhe contar mas só lhe quero contar quando tiver a certeza … por isso Maria, eu peço-te que fiques pelo menos até eu saber os resultados e se tiver que contar a tua mãe.

          O Xavier não quer contar a Amália que pode ter leucemia parece, uma cobardia por parte dele, que sempre se mostra tão forte! Não desejo ficar cá em casa mas só pela Amália eu fico.

          – Obrigada, filha. – A levanta-se e abraça-me.

           Foi tão estranho este momento, tenho tão poucas recordações em que ele me chama filha e me abraça. Já nem sei o que isso é.

           Deito-me da cama, por debaixo dos cobertores. O sono não vem, parece que vou passar a noite em branco. Olho para o relógio digital encima da minha mesa-de-cabeceira e ainda é uma e meia da manhã. O que posso fazer? Esperar que o sono venha?

          Tudo o que tinha acontecido está-me a dar cabo dos nervos. Num único dia entro numa outra vida, agora uma vida dupla, e descubro que o Xavier pode ter leucemia.

          Não me sai duas perguntas da cabeça: Como será a minha vida dupla? E o que acontecera a minha família se o Xavier tiver leucemia?

          Acordo e olho para o relógio, estou mais uma vez atrasada e visto-me a pressa.

          – William, leva-me a casa do Louis por favor – digo ao ver o motorista a entrar cozinha enquanto acabo de comer.

          – Sim, menina! – Sorri.

           – Louis desculpa o atraso! – Dou-lhe um suave beijo e entro em casa.

          - Estás 15 minutos atrasada! Nós não aceitamos atrasos! – Diz friamente Benjamin.

          Benjamin está no fundo da sala, a observar-me duramente. Como eu detesto aquela expressão que ele faz, faz-me lembrar o Xavier. A Erica aparece ao seu lado sorridente.

          – Olá querida. Não te preocupes, a Caroline também está sempre atrasada.

          – Ben, não stress, já cheguei! – Caroline vem sorridente como sempre a descer as escadas.

           – Vocês têm que aprender a não se atrasar.

           – Ben, deixa as miúdas! – Diz a Erica calma mas um pouco irritada perto do ouvido dele.

          – Tinha coisas para preparar. – A Caroline justifica-se. – Maria vem comigo para o meu quarto para fazer algumas coisas no teu computador.

 

One Response to “2º Capitulo – Os Atrasos.”

  1. vanessa'l Diz:

    Hallo!
    eu quando vi um doc a entrar no meu msn com o titulo a minha vida dupla… eu só pensei “NAO PODE!”. Depois de tanto tempo tu brindaste-nos com um cap. Finalmente.
    Só espero que o proximo nao demore tanto tempo. Tens de continuar a coisa para ver onde isto vai dar.

    Gostei muito.
    Bjis.


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